De barco até Ayamonte pelo doce rio Guadiana

O Algarve tem isto. Num saltinho deixa-nos ali em Espanha.

Desta vez o carro fica em Vila Real de Santo António e fazemos a travessia fluvial que, para além de rápida, oferece-nos a real sensação de estarmos a viajar para fora do nosso País.

Não podendo comparar-se a um verdadeiro cruzeiro, os 30 minutos de viagem até à outra margem do Guadiana são no entanto bastante aprazíveis e abrem-nos tempo e hipóteses ao convívio com passageiros de várias nacionalidades. Para além disso levam-nos a recordar a época em que os portugueses fintavam a guarda fronteiriça para salvar os caramelos, a fruta enlatada e muitas outras novidades que, embora por vezes de qualidade duvidosa, tinham rótulos diferentes e um sabor especial só porque vinham do estrangeiro e conferiam estatuto a quem conseguia trazê-los escondidas, sabe-se lá onde.

Ayamonte1Ir de carro é confortável, prático e de pouca inteligência se não aproveitarmos a oportunidade para atestar o depósito a preços que nos matam de inveja. Mas fazer a travessia até ao cais de Ayamonte e imaginar os tempos em que nenhum de nós pertencia à zona euro… bem, não é que crie uma emoção assim tão grande, mas tem um lado romântico nos nossos dias.

Nos tempos de agora, para quem não vai a Ayamonte fazer compras no Mercadona e gosta mesmo é de respirar os ares de Espanha e comer umas tapas valentes, a oferta está muito mais atraente. São várias as propostas desde a Plaza de La Laguna, passando pela rua Angustias (com a bonita Iglesia de Nuestra Senora de las Angustias) até à Plaza de la Coronácion. Aqui, de frente para a marina, encontramos a galardoada Casa Barberi, que celebra este ano um século de existência e destaca-se por dois requisitos essenciais a quem gosta de comer: a cozinha é excelente e a simpatia dos ‘velhos’ empregados também. As puntillitas e os boquerones são iguarias a experimentar e sabem sempre a fresco. Como a cerveja Cruz Campo: é boa quando geladinha.

AyamonteSe for ao dia de semana já sabe: tem de esperar pelas cinco da tarde até que o comércio tradicional volte a abrir. Mas pode aproveitar a siesta de nuestros hermanos para visitar o Museo de Munecas Antiguas ou o Ecomuseo Molino Mareal del Pintado.  Embora não integrem as maiores belezas da Andaluzia, são espaços culturalmente interessantes.

Por isso vão, divirtam-se e sintam-se bem nesta simpática cidade espanhola. Até porque, para além das lojas já muito mais modernas e inúmeras esplanadas soalheiras, Ayamonte deixa-nos à vontade para, lá mais para o fim do dia, querermos um bocadinho de silêncio nos ouvidos. É quando nos apetece voltar para casa. E temos sorte.  Portugal é logo ali.

Por que raio te amo com este perigoso amor?

Hoje tinha de falar sobre ti. Do amor que me prende às tuas cores, ao teu terrível provincianismo, à tua falta de dimensão planetária, à escassez de figuras influentes que te elevem até Lisboa e à ausência de uma dinâmica finalmente isenta dos complexos da periferia.

No dia da inauguração deste blog tinha de falar sobre esta paixão que ameaça explodir-me o coração, sempre que sinto o teu cheiro na maresia, sempre que me surpreendes com estes magníficos céus azuis, ou quando me provocas com o recorte das tuas rudes falésias e me atormentas com os ventos de Espanha.

Tinha de falar do amor e da paixão que sinto por ti, apesar de seres feito de quase nada. E no entanto, permaneço-te fiel.

Será por esta luz que não é igual em mais nenhuma parte da Terra? Por estas paisagens que irrompem das ondas, das serras e dos rios? Destas pessoas velhas que habitam o interior, numa serenidade que nos emociona até à alma? Do verão com cheiro a sorvete e a pele queimada? Dos invernos melancólicos junto ao mar, das culturas que atrais às vezes sem cultura nenhuma e deste poético pôr-do-sol que nos inspira?

Ou talvez pela ilusão de que, um dia, ainda irão tod@s perceber a nobreza que guardas e reconhecer a beleza destas gentes teimosas que te sustentam à força de braços, para te fazer menos pequenino e esquecido?!

Será razão para este amor, as saudades que sinto de ti, quando estou longe? Ou é por realmente me fazeres parecer que o Mundo começa mesmo aqui? Pois se por ti, só por ti, nunca parti…Algarve!