Ai se esta praia fosse minha…

Poderá haver outras menos selvagens. Há certamente outras mais atraentes, provavelmente esculpidas pelas mãos da natureza num dia de profunda iluminação. Até sei que há muitas onde o mar é como um espelho limpo, as dunas são macias como nuvens e a tranquilidade é tanta que nos incomoda em dias de menor ebriedade emocional.

O que eu não gosto é de nenhuma mais do que desta.

Eu sei que ela tem filas intermináveis de manhã até à noitinha, antes e depois da ponte, que é impossível lá chegar e de lá sair sem que nos suba o sangue à cabeça, sei que é difícil andar sem pisar alguém às vezes de propósito e que os automóveis têm prioridade até nos passeios.

É sabido que temos mais mil praias, todas muito melhores do que esta, mas por uma razão qualquer que ninguém percebe, há uns milhares de obstinados que não a trocam por nada e menos ainda por outras dotadas de cenários fulgurantes à beira-mar, que é o que mais temos de sobra por cá.

Comer um pastel de bacalhau aqui é escandalosamente caro, beber água engarrafada é um luxo interdito a quase todos e trabalhar para o bronze como qualquer pessoa civilizada é idílio só alimentado por caloiros na arte de veranear.

Ao mesmo tempo disto tudo, ela acolhe a ria num recorte com uma beleza absolutamente sobrenatural, deita um cheiro estonteante a maresia na baixa-mar, tem surfistas aloirados e pescadores a sério que moram mesmo lá, tem o pôr-do-sol sempre em cima do mar, uma barrinha versátil que gosta de mudar de lugar e o único resort privado do mundo com nome de parque de campismo que parece não incomodar ninguém, especialmente aos políticos com medo de lá entrar.

É vergonhosa esta praia. O meu vício mais embaraçoso. Mas há lá outro lugar assim, onde o verão nos devolva a infância? Ah, praia de Faro…

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