Que inveja dos ‘mosses’ que comem em Olhão

Confesso que não sei quando se começou a gostar de Olhão. E muito particularmente quando é que os farenses deram tréguas à velha e quase tribal rivalidade entre as duas cidades para, como os outros, se renderem aos encantos da cidade cubista. Sobretudo aos gastronómicos.

Quem quer comer bem, sabe que pode e deve ir a Olhão. Como a maioria não desilude no serviço nem na qualidade da comida, difícil é escolher o restaurante. Exceto ao almoço de domingo. Nesse dia é o restaurante que nos escolhe a nós. Se tivermos sorte.

A romaria começa numa e acaba na outra ponta da avenida 5 de Outubro. No ‘dia das famílias’, como é conhecido o domingo em Olhão, ir sem avisar pode custar um bocadinho mais caro: ficar sem almoço, ou acabar de comer lá para as cinco da tarde.

Durante o verão não é necessário que chegue o sétimo dia da semana para vivermos também a experiência interessante de andar pela baixa da cidade com a sensação de termos viajado para fora do nosso País. É que, se já são muitos os nacionais a reconhecer a qualidade da gastronomia olhanense, são tantos ou mais os estrangeiros que nos roubam os lugares no estacionamento e à mesa. Os espanhóis andam quase sempre em força, mas franceses e ingleses já têm lugar cativo na cidade, talvez induzidos pelo chef internacional Jamie Oliver ao ‘galardoar’, com rasgados elogios, os restaurantes locais na sua revista jamiemagazine.

Sem título

Num destes domingos, passei por lá sem avisar ninguém… Já a fome me mandava ir para casa quando consegui um lugarzinho para almoçar perto das quatro da tarde. E ainda tive de esperar mais um bocadinho até à primeira garfada para não gorar o encantamento do grupo de caravanistas franceses que tentava devorar com os olhos a minha espetada de lulas. Já todos de barriga cheia (lá está, eles são sempre os primeiros a chegar…), iam-me fazendo desmaiar pela vontade de perpetuarem o delicioso momento em intermináveis ”Oh, très joli…, très joli…très joli…!”

Pois bem, bonitos e… fresquinhos. Peixe, marisco e tudo aquilo que é possível saltar do mar para o prato, aconselha-se vivamente em Olhão. Já sabe, com reserva ao domingo, para poder dar-se ao luxo de apreciar sem pressa um bom prato típico olhanense e depois regalar-se com a vista maravilhosa da Ria Formosa, que dizem ter esta cidade no coração.

Fotos de Ana Passos

As gémeas que se dedicam à ‘alquimia’ em Olhão

Se não fosse pela deliciosa sandes de queijo fresco, se não fosse pelos irresistíveis sumos naturais e pelos hiper energéticos detox, se não fosse pelos variadíssimos produtos regionais, ou por esta mania de ir comer a Olhão, iria sempre à Alquimia da Terra pela simpatia das irmãs Camões.

Passar por Olhão e ignorar o convite para nos sentarmos à fresca na esplanada laranja e verde, não vale a pena! É aqui que temos a oportunidade de conhecer a mais agradável loja gourmet da cidade cubista e o sorriso temperamental da Fátima a contrastar com os gestos serenos da Margarida. Ambas nascidas no mesmo dia, em Abrantes, ou não fossem gémeas.

Virada para fora e para dentro dos mercados tradicionais que, quer queiramos, quer não, fazem-nos sempre lembrar um certo passado arabesco, a Alquimia da Terra é uma lufada de ar muito clean na inquieta 5 de Outubro.

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São muito de terras algarvias os produtos à venda para consumirmos na hora, ou para levarmos para casa. Ao almoço temos de ir cedo para apanhar a quiche, mas a sandes de queijo fresco em pão escuro é das melhores que já comi na minha vida. Acompanhada por um sumo natural, claro! De frutas ou de vegetais: a grande aposta desta loja singular que nos provoca a gula pelos produtos da terra.

Quer se entre pela esplanada virada para a avenida, ou pelo mercado dos frescos, não há meia volta a dar. Os licores regionais, o mel, os saquinhos de flor de sal temperado com vinho do porto ou piri-piri, as conservas, os figos, os patês, os azeites e o medronho, a ginja, os portos, as amêndoas, as bolachinhas e os bolos secos, dão-nos a volta à cabeça. E é possível vir embora sem participar na prova de bebidas espirituosas que está disponível a qualquer hora? Não!

No meio disto tudo ainda temos as mimosas peças de olaria de Francisco Eugénio e as sacolas coloridas feitas pelas mãos de Paula Rocha, amiga da casa.

Mas não pense que chega lá e avia-se sempre à vontade. Ai de quem se atrever a pedir um sumo onde a melancia e o morango sigam juntos. Atrevi-me e fiquei com a minha ignorância posta a nu. A mim serviu-me de lição. A quem lá for, que se sirva de tudo e que tudo lhe sirva de muito bom proveito. É o meu desejo!