Dá vontade de alimentar ideias assim

No próximo fim-de-semana, o Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) realiza mais uma campanha de angariação de alimentos destinados aos mais pobres. A quem designamos por ‘os mais desfavorecidos’, para ser mais fácil piscar o olho à realidade.

No nosso País – independentemente da forma como pretendam disfarçá-la, a pobreza ocupa uma franja preocupante e por isso as campanhas do BACF estão, para mim, entre as iniciativas mais louváveis em prol de uma causa que devia causar impressão a toda a gente.

Podia enumerar uma série de razões para pactuar com as campanhas do BACF. Deixo apenas uma nota, por ser aquela que me faz participar todos os anos na doação de alimentos.

É que, goste-se ou não de Isabel Jonet, ela tem conseguido manter-se imune às habituais contaminações que cobiçam este género de projetos. Aquelas que, à sombra de intenções mais oblíquas, orbitam perigosamente propósitos tão nobres como o de matar a fome a milhares de pessoas. Pessoas que não conhecemos mas que têm rosto, têm estórias de vida muitas vezes de uma verticalidade admirável e têm quase sempre também a seu cargo seres vulneráveis como as crianças e os idosos.Banco_Alimentar (1)

Há, no entanto, na minha opinião, uma mole humana a quem se deve agradecer o grande êxito do BACF. As muitas centenas, mas mesmo muitas centenas de voluntários anónimos, que trabalham em nome de um instrumento tão sublime como a solidariedade. Muitos, durante todos os dias do ano. Cidadãos comuns que de invulgar têm apenas uma dedicação invejável. No Algarve este movimento regista uma expressão tão extraordinária que já merecia ter espaço nas televisões portuguesas. Para o País perceber a verdadeira índole de quem aqui habita no inverno também.

Como se fossem possuídos de poderes sobrenaturais estes voluntários organizam-se de uma forma exemplar para conseguir recolher e distribuir, de forma ordeira e eficaz, toneladas de alimentos, sem margem para desvios ou outras fugas muito comuns nos universos das ajudas sociais. É por isso que gosto do BACF.

Por esta altura sei que muitos repisam numa velha questão: a irresponsabilidade de um Estado que atira para a sociedade civil a obrigação de alimentar os mais pobres. Quem pensa assim nunca deixará de ter razão. Mas esta é uma razão que se dilui cada vez mais no espírito de cidadania que não carece de desculpas para alastrar. Ser-se solidário está no nosso sangue e a mim, o que me apetece censurar, é a inércia de quem subscreve tiques e doutrinas para não se dar ao trabalho de participar. É mais cómodo, aceito, mas a indiferença relativamente à vida humana nunca me mereceu admiração.

Passar por uma loja e encher um saco com alimentos para o BACF não custa quase nada. Meia dúzia de passos e uns quantos euros que farão uma grande, mas mesmo muito grande diferença, nem que seja num único dia na vida de um cidadão. Que pode ser um dos nossos vizinhos, ou mesmo um familiar ou amigo.

Porque, embora teime em vestir as cores da vergonha, a pobreza não é coisa contagiosa e tem cura. Sábado e domingo, pelo menos, façamos parte desta gigantesca obra humanitária que contribui para a dignidade de um povo. O nosso!

‘Scroll’ e a ousadia de sete atores sem rede: um espetáculo que dá nervos

Fui ver ‘Scroll’, a produção com que a ArQuente tem andado a intimidar o Algarve. Ainda bem que fui desprevenida, sem saber o que se passaria em palco. Porque, embora cada apresentação de ‘Scroll’ resulte num espetáculo irrepetível, interessante na proposta dos sete atores que compõem esta performance insólita é irmos sem sabermos ao que vamos.

Não vou dizer que o espetáculo me tenha impressionado profundamente. Mas seria injusto da minha parte não confessar a forte admiração pela coragem de pessoas que se atiram para o palco sem, também elas, saberem ao certo o que está para vir. Do princípio ao fim, expõem-se ao risco e neste caso o risco é medonho. Porque depende de suportes tão frágeis como a inspiração e o estado de espírito, nem sempre permeáveis à vontade. Por sorte, cada um deles à sua maneira, pode servir-se sem freios da capacidade que revela para o improviso, mas especialmente da sensibilidade e da inteligência. Tanto as próprias como as dos outros seis. Não é fácil. Sobretudo quando a finalidade na partilha do palco é construir fios que possam enredar-se no inesperado, sem lógica, mas com efeito no público. Por isso é que temos bons momentos e outros de complexidade mais oscilante.

O encenador Gil Silva diz, no final da ‘peça’, que desta vez não há personagens mas sim pessoas em interação. O que nos leva a concluir termos estado a assistir a um ‘despimento’ (a expressão também é sua) de sete pessoas que se arriscam à frente de desconhecidos. Uma espécie de catarse, afirma. Mas é aqui que, a meu ver, o público podia ser exigente. Embora reconheça a inquestionável ousadia dos atores para enfrentarem o desafio deste jogo perigoso sem recurso a rede (neste caso, um guião), o que apetece é pedir-lhes mais. Mais vertigem. Que lhes permitisse ir ao fundo, abandonando o conforto da frivolidade, para rasgarem a pele e deixarem sair o que se percebe ser reprimível. Teríamos um resultado trágico provavelmente (ou sem dúvida), mas arrisco a pensar que valeria muitíssimo a pena.

Isto sou eu a divagar e esta é claro uma opinião influenciada ainda pela singularidade do espetáculo que, mesmo sem o grande esforço para romper a superfície, nos oferece muito do que cada um dos atores tem de mais genuíno, de mais infantil e até de mais puro. O que nos comove em certos instantes. Até porque, durante alguns dos cerca de 60 minutos, questionamo-nos até que ponto alguns deles não se vestiram já de ocultos personagens, para se libertarem de si próprios e poderem ser quem são. Mas este será, quanto a mim, um exercício que cabe ao público, sentado em círculo e por isso irremediavelmente cúmplice de uma cena que só pretende esgotar o tempo. Um público, se calhar, conivente até nos receios mal disfarçados. É que, para lá das (algumas) gargalhadas que vão reclamando aqui e ali, há uma permanente ameaçada de os atores se transformarem em espelhos dos espetadores e deixá-los assim despidos também. Até à intimidade. Não sei… Eu gostei!

Ficha Técnica- Gil Silva (Encenador), Alejandra Rodrigues, Ana Nunes, Armando Batista, Fúlvia Almeida, Henrique Prudêncio, Milai Miu, Tata Regala (Atores), Cláudio Jordão (Som), Jorge Pereira (Luzes), Teresa da Silva (Produção), Patrícia Chambino (Figurinos).

A nossa Feira já voltou à cidade

A Feira de Faro toca-nos a todos. Não há farense, nascido ou não por cá, que não sinta este assalto de emoções que se cruzam um pouco entre a ternura e a nostalgia, quando o Largo de São Francisco é invadido por uma parafernália colorida e muito ruidosa para se fazer ouvir na cidade inteira.

Bem sei que estamos todos forçados à evolução e, mais dia, menos dia, a Feira de Faro tinha de vir a ser o que é hoje. A diversão a par de um ombreado de barracas sem personalidade nenhuma, mas muito obedientes a impiedosos critérios de segurança. Não é condenável, mas é uma chatice. Não para as gerações mais novas, porque essas já não vão a tempo de guardar da nossa feira uma imagem carregada do mesmo romantismo que nos faz, a nós, falar dela com a voz um bocadinho embargada. Para quem ansiava pela chegada do mês de outubro e não se importava de enterrar os pés na lama antes de saltar para o carrossel, ou entrar num circo literalmente a rebentar pelas costuras, a questão é muito séria…

Feira 5Todos os anos vou à Feira de Santa Iria. E apesar de não ser nada saudosista, cedo sempre à insistência de umas quantas recordações que gostam de me fazer companhia logo à entrada das ruas estreitinhas, onde antigamente começávamos a encontrar as mulheres do campo a vender nozes e figos torrados em sacos de serapilheira desordenados pelo chão. Onde já nos sentíamos empurrados para a frente pela voz roufenha do leiloeiro de mantas que nos enchia os ouvidos e de uma grande vontade de ter uma assim peludinha a aquecer-nos o inverno. Porque nessa altura fazia frio e chovia durante a feira. E comprava-se ioiôs de serradura que ninguém suspeitava serem armas perigosas mascaradas de brinquedo. E o algodão doce, que era feito de uma doçura natural e tinha um tamanho maior do que a nossa cabeça, deixava-nos os lábios pintados a cor-de-rosa. E também havia multidões descoordenadas à porta dos circos e nas pistas dos carros de choque, porque ninguém sabia o que era uma fila e a educação era uma coisa espontânea. A feira era feia mas deslumbrava-nos tanto, que por nós estávamos lá todos os dias.Feira

Se gostava que a Feira ainda fosse o que era? Não! Mas só porque agora, sou eu que limpo os meus sapatos.

Hoje é o primeiro dia da Feira de Santa Iria e antes que acabe vou lá fazer o que sempre fiz: comprar um saquinho de torrão de Alicante e mordê-lo devagarinho, enquanto volto para casa a disfarçar o outro sabor -o desta parvinha saudade. Isso, ninguém me tira! E a chuva também há-de voltar…!

‘Toino Zé- O Mata Porcos’: entre sem receio porque vai querer ficar

O nome arrepia um bocadinho mas não há quem não se sinta rendido assim de imediato à sua originalidade. Depois queremos saber mais e então recuamos no tempo, à altura em que ‘O Mata Porcos’ começou a ser alcunha para dar a conhecer António Alexandre, amigo de Toino Zé, o pai de Fernando. Já falaremos de Fernando…

Mata porcosVoltemos a ‘O Mata Porcos’ e a 1955, época em que a taberna de António era ponto de encontro para quem se esfolava a trabalhar desde manhã cedo nos fumeiros e nas obras para, ao fim da tarde, procurar aconchego num copo de três e nas parcas palavras com camaradas das mesmas sortes. Mas nem todos se ficavam só pelo vinho. A atração da casa eram na verdade as bifanas do António, que matava porcos na fazenda da Bemposta e os transformava em chouriças e suculentas febras, que lhe haviam de conquistar clientela e fama inabalável. Até hoje.

Por falar em hoje, falemos então de Fernando. Fernando Conceição. Filho de Toino Zé (António José), o homem que, a 8 de abril de 1974 -já os rostos do dia 25 se perfilavam nos quartéis militares, decidiu ficar com o negócio e dar à ‘venda’ um rumo mais adequado à sociedade portuguesa que havia de começar a florescer daí a quinze dias. Celebrava a revolução dos cravos 16 anos, quando o fenómeno do turismo que começava a agitar a região, arrancou Fernando aos estudos universitários para substituir o pai num negócio que passava a exigir o domínio de línguas novas. Uma troca sem dor, a adivinhar pela alegria de Fernando, gerente de uma das mais famosas casas de pasto de Portimão.Toino Zé

Quem entra agora pelo número 22 da Rua Alexandre Herculano, encontra uma atmosfera quase liberta desse passado, que parece muito longínquo para quem dele não fez parte. E digo quase, porque a estória de ‘Toino Zé-O Mata Porcos’ estará eternamente presa ao nome que lhe fez história, razão mais que suficiente para permanecer intocável. Aqui já não são só as bifanas que fazem parte do cardápio. Quem aprecia a gastronomia regional, tem propostas irrecusáveis como arroz de polvo, lulinhas à algarvia, migas com entrecosto, peixe assado na brasa, jaquinzinhos fritos e claro, carne de porco com amêijoas. Mata porcos 1

Tudo isto sabe ainda melhor se repararmos em pormenores como o chão – um prolongamento da calçada da rua das lojas, e também uma parte das paredes forradas a xisto de Monchique, que dão à casa um ar rústico para nos abrir logo o apetite de ficar aqui. Mas o que realmente nos satisfaz é a simpatia do Fernando, homem grande com um sorriso proporcional ao seu metro e noventa, que nos convence a gostar deste ambiente familiar e caseiro. Caseiro na verdadeira acepção da palavra porque, o que sentimos quando apreciamos a forma como o Fernando recebe os clientes, é a impressão de estarmos na casa de alguém de família. E isto já é tão raro…! E continua a ser tão bom!

E lá se vão os arrepios…

 

E se ganhasses um jantar delicioso no Hotel Rural Quinta do Marco?

Sonhar com umas férias em plena harmonia com a natureza, longe do rebuliço das cidades, faz parte da fantasia de qualquer um de nós. No Hotel Rural Quinta do Marco, no coração da serra algarvia, encontramos o conforto, a tranquilidade e a qualidade de um serviço excecional, que nos fazem acreditar estarmos mesmo a viver um sonho.

Localizado em Santa Catarina da Fonte do Bispo, no concelho de Tavira, este belo hotel de quatro estrelas sobranceiro ao oceano atlântico, está aninhado nas colinas verdejantes do sotavento, num convite privilegiado ao bem-estar físico e mental. Atividades ecológicas e desportivas fazem parte das experiências oferecidas aos hóspedes, que encontram aqui o espaço ideal para repousar e retemperar energias.

Aqui tudo nos faz sentir bem. Desde o conforto dos quartos climatizados, onde despertamos para um amanhecer radioso ao som do canto melodioso dos pássaros, passando pelo ambiente acolhedor do Spa, às temperaturas amenas das piscinas, ao sossego do jardim mediterrânico e ao cenário deslumbrante que se avista do restaurante panorâmico, tudo está pensado para nos proporcionar umas férias inesquecíveis.

Quinta do Marco1Pois bem, desta vez não propomos umas férias, mas um delicioso jantar para duas pessoas. A pensar na felicidade dos leitores, o Mal Dito Algarve e o Hotel Rural Quinta do Marco decidiram proporcionar-lhes momentos de pleno prazer no restaurante panorâmico do empreendimento onde, para além de uma excelente refeição inspirada na cozinha tradicional, irão com certeza aproveitar a magnífica beleza das paisagens serranas.

Para participarem neste passatempo e se habilitarem à oferta de um jantar memorável, os leitores só têm de fazer três coisas simples:

– Seguir (fazer gosto) a página de Facebook do Hotel Quinta do Marco

– Seguir (fazer gosto) a página de Facebook do Blog Mal Dito Algarve

– Preencherem, até ao dia 9 de outubro (2ª-feira), o formulário publicado abaixo. Atenção que só é válida uma inscrição por e-mail. Os vencedores serão selecionados aleatoriamente através do RANDOM ORG e posteriormente contactos. Participem, divirtam-se e boa sorte!

*artigo em parceria com o Hotel Rural Quinta do Marco

A minha África encantada nas pinturas de São Passos

São Passos_1Ela não é uma mulher simples. Porque os seus olhos não deixam. Misteriosos, profundos, inquietos. Feitos de uma luz que nos leva para as terras quentes de África, onde se descobriu dona de um talento tão grandioso que a fez ser tudo menos uma mulher simples. Fê-la ser uma senhora do mundo. A terra-mãe está, aliás, sempre presente nas suas obras, emergindo em formas poderosas da intensidade dos traços e das cores, que nos trazem de volta os cheiros, os ritmos, a serenidade do tempo e também uma tremenda vontade de viver.

Era bom que, tendo dito isto assim, já tivesse dito tudo sobre ela. E libertava-me já desta prova de fogo: escrever sobre São Passos. Dela tenho uma primeira recordação desconcertante que guardo só para mim, no mesmo lugar onde lhe dedico um infinito respeito. Como aquele que se sente quando nos vemos perante alguém maior do que todas as coisas que já conhecemos até ali. Percebem agora como isto não é fácil?

Salva-me esta amizade cultivada à distância durante uns quase 30 anos, para poder estar hoje aqui a tentar transformar um sentimento em palavras que façam sentido. Se confessar a minha paixão pelas suas obras talvez seja um bom começo. Não consigo não gostar de alguma. Porque em todas as que conheço encontro a sensação de retornar a casa. E nunca encontrei, até hoje, nenhuma outra sensação mais doce do que esta. Será o apelo de África, aquele continente que desperta em nós um remoinho de emoções que nos levam por caminhos irreparáveis, ou porque as suas telas nos trazem para a flor da pele carinhosos afagos vindos da infância?!São Passos 4_1

Enquanto mergulho os olhos nos quadros da São Passos, pergunto-me sobre o que terá aquela cidade da Beira onde nasceu, para conseguir oferecer a algumas pessoas elementos tão sublimes como o dom para a arte. E reconheço a sorte de me ter cruzado com um génio que faz nascer das mãos, estes maravilhosos mundos onde cabem todas as nossas fantasias. O que sentirá a São quando deixa que os pincéis revelem aquilo que os seus olhos escondem?

“A pintura é o antídoto que qualquer artista necessita para esquecer o futuro incerto, que nos espreita. Quando pinto, diariamente, esqueço-me de tudo e de todos, sabendo  – modéstia à parte – que irei contribuir nacional e internacionalmente, para a felicidade de homens, mulheres e crianças, cujo idioma é diferente. Dou workshops de pintura e de artesanato a todas as faixas etárias – dentro e fora do País – e a maior parte das minhas exposições é a pensar no próximo: não custa nada ser solidária com quem precisa”.

Talvez por ser assim, foi empossada como Embaixadora para a Paz, pela Federação Internacional da Paz (março de 2012). E a legitimar a minha admiração por esta artista de coração grande, deixem-me dizer que está também referenciada na publicação ‘Aspetos das Artes Plásticas em Portugal’ (1985) e no livro ‘Arte 98’, ambos da autoria de Fernando Infante do Carmo. Para além disso, São Passos foi reconhecida pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora e pela ALDCI – Associação Lusófona, Desenvolvimento, Cultura e Integração, pelo “prestígio que granjeou nas artes plásticas e pelo seu grande contributo para o enriquecimento e divulgação da cultura moçambicana”.

Não sei falar de pintura. Por isso não saberia falar de outra forma sobre as obras de São Passos. Mas há uma coisa na qual ninguém me pode contrariar: que aqueles olhos escondem alguma coisa, lá isso escondem. Foi sempre o que mais me impressionou nela…!

‘OLHA QUE DOIS’ JUNTA SÃO PASSOS E MARQUES VALENTIM EM PORTIMÃO
São Passos 2_1Já sobra pouco tempo, mas ainda vale a pena visitar a exposição que São Passos trouxe ao Algarve, durante este mês de setembro. ‘Olha que dois’, junta a artista ao fotojornalista Marques Valentim, na Casa Manuel Teixeira Gomes, onde pode ser visitada até amanhã, das 10h às 18h. Se não for a tempo não faz mal: a São promete voltar em breve ao Algarve, onde aliás mostrou pela primeira vez as suas obras em Portugal. Foi em Faro, em julho de 1973, numa exposição individual com o patrocínio da Comissão Regional de Turismo. Muito antes disso já dera a conhecer o seu trabalho a um bocadinho do mundo: primeiro na cidade moçambicana de Tete, depois na Beira (onde nasceu em 1949), Joanesburgo e Pretória (África do Sul), Blantyre e Limbe (Malawi), até chegar à Europa. A residir em Portugal (Belas) desde 1976, São Passos expõe com frequência no nosso País e no estrangeiro. A próxima exposição é inaugurada dia 3 de outubro, no Hotel Cidadela, em Cascais, a convite do Rotary Club Cascais/Estoril.Depois é só mais um saltinho até ao resto do mundo. “Desde que comecei a pintar, sempre sonhei que os meus trabalhos fossem conhecidos nos quatro cantos do mundo, influenciando miúdos, pessoas mais velhas, e não só, com a cor, movimento e vida, que lhes dou. E não me enganei…o país que me viu nascer – Moçambique – África do Sul e antiga Rodésia, conhecem o meu traço pictórico. Expor em várias capitais mundiais, é um sonho que está cada vez mais perto.”
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Quem semeia ventos…colhe frescura numa rua de Loulé  

Há dias assim. No espaço de uma hora mudamos de decisão…umas quantas vezes.

Aconteceu-me em Loulé, onde fui propositadamente para saborear umas tapas no bar Colheita Fresca, depois de andar algum tempo a espreitar as fotos apetitosas na página do Facebook. À chegada gostei do espaço, gostei do atendimento e do rosto simpático de quem me levou a escolher mesa e trouxe a tábua mista decorada com uns apontamentos coradinhos, próprios dos tomates cherry. Sempre com um sorriso disponível!

A primeira mudança de decisão ignorou no entanto a simpatia do senhor Vieira. A lista das tapas desiludiu-me por não oferecer nada de extraordinário. Quando queremos ser surpreendidos acontece-nos isto. Ainda pensei que o problema não era do menu nem de quem o elaborou, mas inteiramente meu, por criar expetativas de ter o que ninguém me prometera. Sem grande ânimo optei pela tábua mista e uma salada de polvo e não fiquei nada mal porque, por essa altura, o pão caseiro e as azeitonas deliciosas já me tinham espevitado o apetite. Os enchidos e o queijo eram bons, o polvo estava macio e bem temperado, mas mesmo assim decidi não escrever nada porque teimei na ideia de querer viver a famosa experiência de uma explosão de sabores e coisas do género, que nos prometem muitas vezes quando a matéria é gastronomia.

Colheita Fresca

 

 

Colheita Fresca 1

À perguntam “se gostei?” enquanto pagava, não me contive e pedi licença para fazer uma ligeira sugestão: uma pequena mudança nas tapas, mais elaboradas, enfim… E recebi de troco a resposta: “Ainda hoje falei com a minha esposa e decidimos mudar o menu para petisquinhos mais propícios ao inverno”. E é aqui que o senhor Vieira e o seu sotaque nortenho me conquistam o coração. Sem dar por isso, ouço-lhe a estória que fez nascer o Colheita Fresca. Um projeto que nasceu à sorte quando, ainda em Inglaterra onde esteve emigrado mais de uma década, o senhor Vieira e a mulher apontaram, praticamente às cegas, o dedo ao anúncio de um bar para alugar e decidiram: “Vamos para aqui!”Colheita Fresca 5

Desprezando os detalhes do negócio, só em solo algarvio descobriram ser este um espaço de pouca fama e cheio de móveis quebradiços. Mas quem se especializou na aventura de emigrar desde curta idade não costuma dar-se por vencido e é assim que este homem do norte com um sorriso fácil, transformou uma velha discoteca num bar de tapas muito agradável, que vai buscar ao mercado ali próximo a frescura dos produtos genuínos para transformar a rua Dr. Joaquim Nunes Saraiva num lugar onde nos sentimos bem.

E esta foi a última vez que mudei a minha decisão. Afinal sempre escreveria… Não sobre as óbvias propostas gastronómicas, mas sobre o encanto que nos desperta quem se faz à vida sem medo para criar projetos válidos como o Colheita Fresca. Não sei se haverá uma próxima vez, mas fiquei curiosa sobre o novo menu e a francesinha que garantem ser excecional.

Outra coisa: normalmente informo os protagonistas das minhas estórias quando vou escrever sobre eles e publico-lhes a foto. Desta vez decidi não fazê-lo porque me apetece quebrar as regras e deixar isto ao sabor do destino. Como fez o senhor Vieira. Pode ser que dê sorte! Sem expetativas…!

O doloroso regresso das férias

O regresso das férias de verão é uma experiência anual verdadeiramente intransponível na vida de qualquer pessoa. Pelo menos das que gostam de férias. A mim custa-me. É como se as palavras também tivessem ido descansar para longe de mim e resistissem ao dever de voltar para me servir a inspiração. Tenho de fazer um esforço herculano para resgatar cada uma delas e arrumá-las de forma a conseguir alinhar umas quantas ideias para o arranque da nova época. Como se fosse eu a pertencer-lhes e não elas a mim.

Estou a usar a meia dúzia que consegui trazer de volta à rotina para desejar a todos um bom regresso à vidinha normal, de preferência sempre na companhia do Mal Dito Algarve. Não prometo nada de especial porque tenho por hábito não cumprir as promessas, mas é provável que continue a escrever sobre o que gosto e às vezes sobre o que nem por isso.

Agora que já espantei a preguiça e dei ordem de regresso às palavras…

Sinceramente, a quem é que eu estou a tentar enganar? Como é que se tira esta estúpida angústia da garganta por terem acabado as férias? Como é que se consegue passar um dia inteiro a levar a vida a sério sem pensar no mar a espraiar-se ali mesmo ao lado nas areias agora quase desertas? Quem é que tem energia para organizar a agenda, quando esta brisa morna nos empurra para as esplanadas ainda apinhadas de gente, quando estas manhãs luminosas teimam em chamar-nos para um belo passeio ao ar livre, quando o entardecer parece prolongar-se mais um bocadinho para nos dar tempo a um último mergulho nas ondas de setembro…?

Por que tinham de acabar as férias?  Porquê, se o verão ainda não acabou?!image

Sandra Santos – a fotógrafa rebelde que (des)faz imagens em arte

Há quem dela diga que é livre, linda e louca. Mas a Sandra também é uma das fotógrafas mais criativas que conheço. Por isso o que me apetece chamar-lhe é artista. Porque a ela não lhe basta captar uma imagem. Explora-a até às mais intrínsecas versões, só possíveis à arte.

A exposição ‘Repainted”, produzida a partir do bailado ‘Amar Amália’ e que este mês pode ser vista na galeria de Mal Dito Algarve, é um ínfimo detalhe na gigantesca tela onde a inspiração de Sandra Santos (ou San San), vai deixando gravadas obras de uma imaginação sem limites, que nos fazem adivinhar um espírito irremediavelmente livre e por isso sem quaisquer rodeios criativos.

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E esta é a única partícula que conseguimos prever no mundo onde habita, já que as obras são um reflexo da imprevisibilidade com que Sandra tem desenhado a vida. Assim como certas fotografias, também as decisões saem quase sempre espontâneas como se fossem empurradas por um fluxo de energia imparável e quase incomparável. É por isso que a encontramos agora a 50 quilómetros de Bilbau (Vitória-Gasteiz) onde reside há seis anos.

No País Basco faz uma incursão pelas artes plásticas e traz-nos muitas notícias de experiências recentes: a fotografia animada pelo universo da cinegrafia, mas também na transposição para materiais tão versáteis e orgânicas como ela própria: madeira e cartão reciclados. Por se confessar rendida aos limites que lhe impõem… Um contra-senso? Sim, sem dúvida. Quando se trata de alguém que não se cansa de se descobrir e que não resiste aos próprios desafios, o contra-senso faz todo o sentido.

Daí que não desista da música. DJ assumida desde que a conhecemos vai brilhando também nesta vertente artística em espaços contemporâneos de Espanha. sandra5_1Ou não fosse a música o seu primeiro amor e aquele que será o último: “A vida sempre foi a junção perfeita de dois mundos: a imagem e o som”, diz-nos, com o mesmo sorriso teimoso que dela guardamos desde sempre.

Queria escrever tanta coisa da Sandra e acabo por não dizer quase nada. Talvez possa terminar chamando-lhe também rebelde e irreverente pois é pela irreverência que vai descobrindo caminhos e lugares no mundo, que lhe oferecem respostas mais ajustadas à sua dimensão. É por isso que lhe desculpo esta partida para longe de nós, porque quando queremos que os amigos cresçam há que perdoar-lhes a ausência e orgulharmo-nos da cadência de acontecimentos com que vão construindo uma estória. A da vida!

O apelo da água doce e como fugir à invasão das praias algarvias

Tenho um fetiche inexplicável por lagoas de água doce rodeadas por muros de árvores. De onde só se vê o céu e um horizonte de arbustos rasteiros com cheiro a mato. Sem desprezo pelo mar que é o primeiro e grande amor da minha vida, confesso este fraquinho, que me vem mesmo a calhar sobretudo numa altura em que o Algarve rompe pelas costuras e chegar às praias representa tudo menos descanso e sossego.

Garanto que não quero influenciar ninguém, mas não trocava por nada deste mundo um certo dia deste mês de agosto que passei dentro de uma água brilhante como um espelho, ao som das incansáveis cigarras que parecem cantar ao ritmo do nosso coração quando fechamos os olhos e nos deixamos engolir pela corrente.

Para chegar às barragens algarvias e descobrir um acesso às lagoas requer paciência, persistência e um grande desejo de ficar a sós com a vida, mas vale a pena. À falta de lagoas naturais e sem os artifícios do litoral, estas reservas de água não são apenas oásis no interior do Algarve já por si feito de uma beleza admirável. São também uma ideia muito refrescante para um dia de verão sem a companhia de outras pessoas que não sejam aquelas a quem convidei para passar férias comigo.

E isto tudo sem qualquer pingo de raiva contra quem goza sofregamente umas paupérrimas semanas no nosso idílico Algarve. Não sou contra o turismo nem contra os turistas, reconheço-lhes a importância para a nossa economia e segurança e como não sou egoísta não me importo nada de partilhar com milhares de gentes as praias, os restaurantes, as ruas e os momentos do nosso maravilhoso verão.

Eles que venham e aproveitem. Eu estou em estado zen…! E já agora não me censurem por promover mais um paraíso na terra com receio de virem os outros e estragarem tudo. Este tipo de paixão não é para todos!