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CONTOO dia em que o Natal escapou ao Android

Por MADALENA BENTES

A velha é tão velha que já mal pode andar. Por isso passa os dias sentada no terraço das traseiras, com o tablet no colo, a navegar na Net. Durante o verão usa um toldo para se proteger do sol nascente que lhe fere os olhos quando acerta nas paredes brancas da casa, mas agora estamos no inverno, o calor está mais mansinho e sabe-lhe bem senti-lo a chegar aos ossos.
Para que se saiba, a velha é poeta. Não frequenta à toa as redes sociais. Escreve estórias, faz versos e quadras que raramente rimam porque despreza a poesia popular e cria frases filosóficas para serem partilhadas pelas centenas de seguidores com quem convive virtualmente no Facebook. A sua página no Instagram está carregada de imagens sem qualquer inquietação artística, favorecidas por uma imaginação feraz e a imperícia no uso da câmara comprada pela Internet. Também não raras são as vezes em que opina, sublevando com classe intelectual muitas discussões que agitam a atualidade no Twitter. E nos dias em que acorda servida pela inspiração, envia mensagens amparadas em belas prosas e voz melodiosa aos amigos no WatsApp. Mas quando lhe apetece estar sozinha, tira o e-book do bolso e lê, até que a luz fuja para trás do horizonte e as sombras lhe comecem a gritar por um agasalho.
Esta velha, de uns suaves olhos azuis ligeiramente aprofundados pela idade, vive numa casa nas margens da cidade, com as janelas viradas para uma serra e diz-se feliz. Mas hoje acordou inquieta, o que não lhe é vulgar, e ficou algum tempo de pé, de costas para a porta, a olhar para dentro da casa. Nota-lhe primeiro o silêncio, depois sente-a estremecer como se fustigada pela aragem fria, até pressentir a nostalgia no vazio cercado pelas paredes quando, sem dar por ela, o corpo escorrega até ao chão e as pernas magras procuram uma posição confortável para ficar ali sentada a tentar perceber do que lhe fala a casa.
Vem-lhe à ideia que este há-de ser um momento perpetuado à força da escrita, quando conseguir exorcizar a estranha experiência, vivida a sós não fosse ter a testemunhá-la a manhã gélida já desenhada no soalho. Mas qualquer coisa lhe diz que este não é caso para enredos. Por isso deixa que os olhos se fechem e a memória lhe devolva outras manhãs, trancadas numa vida tão longínqua que certamente não terá sido sua. As que antecediam a noite abençoada na sala de jantar aberta ao fundo do corredor, onde a penumbra se dissipa devagar com o erguer do dia enquanto ela, agora mais do que velha, mastiga devagar uma amargura que sabe vir das profundezas do coração. Onde julga estarem guardados alguns sentimentos e outras anomalias da alma, como as saudades.
Quando se levanta sente-se frágil, mas faz vista grossa à fraca assistência do corpo quando chamado a acompanhar os galopes do pensamento e entra na sala de jantar. Repara na mesa coberta por uma película de pó, corre as cortinas das duas janelas e reveste com ironia a mágoa, para pensar que a vida, a sua, até dava um belo drama de cordel. Devagar, procura o terraço das traseiras e demora-se no perfil dos montes, já com os verdes inflamados pela luz diagonal que se derrama com ternura sobre os vales aconchegados na paisagem. Porque é assim que a velha teima em ver a serra. Agora sente que está um frio de rachar e esfrega as mãos para afastar o tremor dos dedos, a parte do corpo que mais lhe fraqueja às emoções, sejam elas boas ou más.
Já sentada na cadeira de lona, estica as pernas e os braços como se quisesse crescer e vira o rosto para o céu limpo, espalhado até ao princípio da terra num surpreendente degradé de azul. Até que, cheia de coragem, afasta os pensamentos rebeldes que lhe desassossegam a mente desde que escorregou até ao chão e pega no telemóvel. Tem 57 mensagens para enviar. Hoje é dia 24 de dezembro e ela deixa-se encher de vaidade quando revê as palavras feitas a propósito de dar conta aos outros da sua natural e inquestionável beleza poética. E logo à noite há-de meter uma perna de peru no forno com uns quantos quartos de batata, tudo salpicado a alho e azeite, e há-de jantar com um tabuleiro sobre os joelhos distraindo o olhar num filme que lhe fale de tudo menos de Natal e está resolvida a consoada. Porque como ela é poeta, até sabe fingir que não sente a dor que realmente sente, pensa ainda, evocando para a conversa o homem a quem teria ensinado umas quantas coisas sobre o amor tivesse ele a sorte de ter podido esperar por ela.
A manhã, esta manhã, também há-de passar, porque todas passam, pensa a velha sacudindo a mão no ar como se conseguisse assim afastar de uma vez só as recordações teimosas e o zumbido da campainha que lhe rouba a atenção. Qual quê, não há maneira de se concentrar, o raio da sineta não pára, quem seja que se canse de tocar porque agora tem muito por fazer. O Natal chegou, este ano mais depressa ainda do que no ano passado e nos outros anos passados e o desleixo fê-la adiar, por uns bons pares de dias, as mensagens carinhosas que escreve por esta altura do ano ao filho migrado no outro lado do País e à filha dela esquecida no outro lado da Europa.
Não fosse o grilo infernal, que raramente se faz ouvir e tinha de ser logo hoje, e já o primeiro sms estaria pronto a seguir, carregando para o outro extremo do continente as palavras que sempre sonhou dizer com os olhos postos nos filhos e os braços à volta dos netos. A velha está agora zangada. Hesitante entre segurar as palavras no Android antes que outro pensamento as destrua, ou ir à porta afastar quem dali não parece querer arredar pé sem lhe estragar o tempo nas vésperas de Natal. Por fim cede, arrasta os pés pelo corredor até conseguir espreitar pelo postigo e ser apanhada por uma sensação de mal-estar. Por instantes parece-lhe ver uma multidão à porta, por isso fecha os olhos para afastar a miragem, levantou-se muito depressa, pensa, isto da idade não perdoa desde que a tensão começou a brincar com ela às subidas e descidas e o trinado da campainha assusta-a, fá-la dar um salto para trás e abre os olhos outra vez. A multidão, lá continua. A velha está confusa, mal percebe o contorno dos corpos, quanto mais conseguir contá-los e esfrega a cara com as costas das mãos para aclarar a vista. Agora são os nós dos dedos de alguém que ameaçam partir-lhe os vidros da janela, parece que ouve vozes e gritos miudinhos e um deles vem para mais perto, entra-lhe nos ouvidos, chega-lhe ao peito, atinge-lhe o coração.
– Vovó Nela, vovó Nela…!
Fosse a velha dada a desmaios e teria ficado redondinha no chão. Não se lembra de ter levado a mão à maçaneta da porta, nem de deixar escapar o espanto e muito menos de permitir às lágrimas que lhe invadam os olhos, lhe colem as pestanas, lhe rolem pelas faces e lhe encham a boca de sal.
Vovó Nela está agora sentada no sofá da sala, a casa agitada, o filho quase ao seu colo, os netos às corridas no terraço, a nora a preparar-lhe um copo com água e açúcar para lhe acalmar o fôlego, a filha agarrada ao seu pescoço e o genro a trazer dezenas de malas e sacos para dentro como se fossem viver todos ali para sempre. À noite serão tantos os risos, os beijos e os abraços que só no dia seguinte, já na cadeira de lona, terá calma suficiente para ver os presentes recebidos, pegar neles, sentir-lhes o peso nas mãos curvadas e deixar que o cheiro lhe chegue ao nariz quando encostar o rosto às folhas de papel, antes de mergulhar docemente na leitura do primeiro livro. O de Fernando.

 

FIM