Dá vontade de alimentar ideias assim

No próximo fim-de-semana, o Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) realiza mais uma campanha de angariação de alimentos destinados aos mais pobres. A quem designamos por ‘os mais desfavorecidos’, para ser mais fácil piscar o olho à realidade.

No nosso País – independentemente da forma como pretendam disfarçá-la, a pobreza ocupa uma franja preocupante e por isso as campanhas do BACF estão, para mim, entre as iniciativas mais louváveis em prol de uma causa que devia causar impressão a toda a gente.

Podia enumerar uma série de razões para pactuar com as campanhas do BACF. Deixo apenas uma nota, por ser aquela que me faz participar todos os anos na doação de alimentos.

É que, goste-se ou não de Isabel Jonet, ela tem conseguido manter-se imune às habituais contaminações que cobiçam este género de projetos. Aquelas que, à sombra de intenções mais oblíquas, orbitam perigosamente propósitos tão nobres como o de matar a fome a milhares de pessoas. Pessoas que não conhecemos mas que têm rosto, têm estórias de vida muitas vezes de uma verticalidade admirável e têm quase sempre também a seu cargo seres vulneráveis como as crianças e os idosos.Banco_Alimentar (1)

Há, no entanto, na minha opinião, uma mole humana a quem se deve agradecer o grande êxito do BACF. As muitas centenas, mas mesmo muitas centenas de voluntários anónimos, que trabalham em nome de um instrumento tão sublime como a solidariedade. Muitos, durante todos os dias do ano. Cidadãos comuns que de invulgar têm apenas uma dedicação invejável. No Algarve este movimento regista uma expressão tão extraordinária que já merecia ter espaço nas televisões portuguesas. Para o País perceber a verdadeira índole de quem aqui habita no inverno também.

Como se fossem possuídos de poderes sobrenaturais estes voluntários organizam-se de uma forma exemplar para conseguir recolher e distribuir, de forma ordeira e eficaz, toneladas de alimentos, sem margem para desvios ou outras fugas muito comuns nos universos das ajudas sociais. É por isso que gosto do BACF.

Por esta altura sei que muitos repisam numa velha questão: a irresponsabilidade de um Estado que atira para a sociedade civil a obrigação de alimentar os mais pobres. Quem pensa assim nunca deixará de ter razão. Mas esta é uma razão que se dilui cada vez mais no espírito de cidadania que não carece de desculpas para alastrar. Ser-se solidário está no nosso sangue e a mim, o que me apetece censurar, é a inércia de quem subscreve tiques e doutrinas para não se dar ao trabalho de participar. É mais cómodo, aceito, mas a indiferença relativamente à vida humana nunca me mereceu admiração.

Passar por uma loja e encher um saco com alimentos para o BACF não custa quase nada. Meia dúzia de passos e uns quantos euros que farão uma grande, mas mesmo muito grande diferença, nem que seja num único dia na vida de um cidadão. Que pode ser um dos nossos vizinhos, ou mesmo um familiar ou amigo.

Porque, embora teime em vestir as cores da vergonha, a pobreza não é coisa contagiosa e tem cura. Sábado e domingo, pelo menos, façamos parte desta gigantesca obra humanitária que contribui para a dignidade de um povo. O nosso!

A minha África encantada nas pinturas de São Passos

São Passos_1Ela não é uma mulher simples. Porque os seus olhos não deixam. Misteriosos, profundos, inquietos. Feitos de uma luz que nos leva para as terras quentes de África, onde se descobriu dona de um talento tão grandioso que a fez ser tudo menos uma mulher simples. Fê-la ser uma senhora do mundo. A terra-mãe está, aliás, sempre presente nas suas obras, emergindo em formas poderosas da intensidade dos traços e das cores, que nos trazem de volta os cheiros, os ritmos, a serenidade do tempo e também uma tremenda vontade de viver.

Era bom que, tendo dito isto assim, já tivesse dito tudo sobre ela. E libertava-me já desta prova de fogo: escrever sobre São Passos. Dela tenho uma primeira recordação desconcertante que guardo só para mim, no mesmo lugar onde lhe dedico um infinito respeito. Como aquele que se sente quando nos vemos perante alguém maior do que todas as coisas que já conhecemos até ali. Percebem agora como isto não é fácil?

Salva-me esta amizade cultivada à distância durante uns quase 30 anos, para poder estar hoje aqui a tentar transformar um sentimento em palavras que façam sentido. Se confessar a minha paixão pelas suas obras talvez seja um bom começo. Não consigo não gostar de alguma. Porque em todas as que conheço encontro a sensação de retornar a casa. E nunca encontrei, até hoje, nenhuma outra sensação mais doce do que esta. Será o apelo de África, aquele continente que desperta em nós um remoinho de emoções que nos levam por caminhos irreparáveis, ou porque as suas telas nos trazem para a flor da pele carinhosos afagos vindos da infância?!São Passos 4_1

Enquanto mergulho os olhos nos quadros da São Passos, pergunto-me sobre o que terá aquela cidade da Beira onde nasceu, para conseguir oferecer a algumas pessoas elementos tão sublimes como o dom para a arte. E reconheço a sorte de me ter cruzado com um génio que faz nascer das mãos, estes maravilhosos mundos onde cabem todas as nossas fantasias. O que sentirá a São quando deixa que os pincéis revelem aquilo que os seus olhos escondem?

“A pintura é o antídoto que qualquer artista necessita para esquecer o futuro incerto, que nos espreita. Quando pinto, diariamente, esqueço-me de tudo e de todos, sabendo  – modéstia à parte – que irei contribuir nacional e internacionalmente, para a felicidade de homens, mulheres e crianças, cujo idioma é diferente. Dou workshops de pintura e de artesanato a todas as faixas etárias – dentro e fora do País – e a maior parte das minhas exposições é a pensar no próximo: não custa nada ser solidária com quem precisa”.

Talvez por ser assim, foi empossada como Embaixadora para a Paz, pela Federação Internacional da Paz (março de 2012). E a legitimar a minha admiração por esta artista de coração grande, deixem-me dizer que está também referenciada na publicação ‘Aspetos das Artes Plásticas em Portugal’ (1985) e no livro ‘Arte 98’, ambos da autoria de Fernando Infante do Carmo. Para além disso, São Passos foi reconhecida pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora e pela ALDCI – Associação Lusófona, Desenvolvimento, Cultura e Integração, pelo “prestígio que granjeou nas artes plásticas e pelo seu grande contributo para o enriquecimento e divulgação da cultura moçambicana”.

Não sei falar de pintura. Por isso não saberia falar de outra forma sobre as obras de São Passos. Mas há uma coisa na qual ninguém me pode contrariar: que aqueles olhos escondem alguma coisa, lá isso escondem. Foi sempre o que mais me impressionou nela…!

‘OLHA QUE DOIS’ JUNTA SÃO PASSOS E MARQUES VALENTIM EM PORTIMÃO
São Passos 2_1Já sobra pouco tempo, mas ainda vale a pena visitar a exposição que São Passos trouxe ao Algarve, durante este mês de setembro. ‘Olha que dois’, junta a artista ao fotojornalista Marques Valentim, na Casa Manuel Teixeira Gomes, onde pode ser visitada até amanhã, das 10h às 18h. Se não for a tempo não faz mal: a São promete voltar em breve ao Algarve, onde aliás mostrou pela primeira vez as suas obras em Portugal. Foi em Faro, em julho de 1973, numa exposição individual com o patrocínio da Comissão Regional de Turismo. Muito antes disso já dera a conhecer o seu trabalho a um bocadinho do mundo: primeiro na cidade moçambicana de Tete, depois na Beira (onde nasceu em 1949), Joanesburgo e Pretória (África do Sul), Blantyre e Limbe (Malawi), até chegar à Europa. A residir em Portugal (Belas) desde 1976, São Passos expõe com frequência no nosso País e no estrangeiro. A próxima exposição é inaugurada dia 3 de outubro, no Hotel Cidadela, em Cascais, a convite do Rotary Club Cascais/Estoril.Depois é só mais um saltinho até ao resto do mundo. “Desde que comecei a pintar, sempre sonhei que os meus trabalhos fossem conhecidos nos quatro cantos do mundo, influenciando miúdos, pessoas mais velhas, e não só, com a cor, movimento e vida, que lhes dou. E não me enganei…o país que me viu nascer – Moçambique – África do Sul e antiga Rodésia, conhecem o meu traço pictórico. Expor em várias capitais mundiais, é um sonho que está cada vez mais perto.”
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Sandra Santos – a fotógrafa rebelde que (des)faz imagens em arte

Há quem dela diga que é livre, linda e louca. Mas a Sandra também é uma das fotógrafas mais criativas que conheço. Por isso o que me apetece chamar-lhe é artista. Porque a ela não lhe basta captar uma imagem. Explora-a até às mais intrínsecas versões, só possíveis à arte.

A exposição ‘Repainted”, produzida a partir do bailado ‘Amar Amália’ e que este mês pode ser vista na galeria de Mal Dito Algarve, é um ínfimo detalhe na gigantesca tela onde a inspiração de Sandra Santos (ou San San), vai deixando gravadas obras de uma imaginação sem limites, que nos fazem adivinhar um espírito irremediavelmente livre e por isso sem quaisquer rodeios criativos.

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E esta é a única partícula que conseguimos prever no mundo onde habita, já que as obras são um reflexo da imprevisibilidade com que Sandra tem desenhado a vida. Assim como certas fotografias, também as decisões saem quase sempre espontâneas como se fossem empurradas por um fluxo de energia imparável e quase incomparável. É por isso que a encontramos agora a 50 quilómetros de Bilbau (Vitória-Gasteiz) onde reside há seis anos.

No País Basco faz uma incursão pelas artes plásticas e traz-nos muitas notícias de experiências recentes: a fotografia animada pelo universo da cinegrafia, mas também na transposição para materiais tão versáteis e orgânicas como ela própria: madeira e cartão reciclados. Por se confessar rendida aos limites que lhe impõem… Um contra-senso? Sim, sem dúvida. Quando se trata de alguém que não se cansa de se descobrir e que não resiste aos próprios desafios, o contra-senso faz todo o sentido.

Daí que não desista da música. DJ assumida desde que a conhecemos vai brilhando também nesta vertente artística em espaços contemporâneos de Espanha. sandra5_1Ou não fosse a música o seu primeiro amor e aquele que será o último: “A vida sempre foi a junção perfeita de dois mundos: a imagem e o som”, diz-nos, com o mesmo sorriso teimoso que dela guardamos desde sempre.

Queria escrever tanta coisa da Sandra e acabo por não dizer quase nada. Talvez possa terminar chamando-lhe também rebelde e irreverente pois é pela irreverência que vai descobrindo caminhos e lugares no mundo, que lhe oferecem respostas mais ajustadas à sua dimensão. É por isso que lhe desculpo esta partida para longe de nós, porque quando queremos que os amigos cresçam há que perdoar-lhes a ausência e orgulharmo-nos da cadência de acontecimentos com que vão construindo uma estória. A da vida!

O jornalista que brinca à ‘bola branca’

O meu amigo Rui Viegas é das melhores pessoas que existem no mundo. E quem discordar disto, das duas, uma: não o conhece, ou conhece-o mal! Em ambos os casos não há rancor a guardar, mas sim um convite a fazer. Já lá vou.

Se alguém gostasse de ter um amigo para todos os momentos da vida, escolhia o Rui. Eu por acaso não o escolhi. Nem ele a mim. Acho que nem reparámos que éramos amigos até darmos conta da alegria que sentíamos quando nos encontrávamos. Agora essas vezes são raras, porque os amigos fazem-nos coisas como esta: vão-se embora. Restam-nos as muitas recordações e ficarmos a acenar de longe, como quem os chama de volta.

Rui 2

No caso do Rui, a vantagem é encontrá-lo quase todos os dias a surfar nas ondas hertzianas da Renascença. Mesmo sem nunca me ter habituado a gostar de futebol, lá vou ouvindo o Bola Branca para fazer de conta que ele está aqui. A outra vantagem é termos sempre uma vontade quase frenética de contarmos as novidades e as coscuvilhices que se vão passando nas nossas vidas e isso obriga-nos a uma agenda rigorosa de encontros anuais. Uma espécie de cimeira que nos leva quase sempre a derivar para algumas das delirantes memórias dos tempos que nos colocaram no mesmo caminho, há uns anos atrás. No século em que apareceram os canais privados e as reportagens eram feitas em contra-mão para não perdermos o lugar no alinhamento dos noticiários.

Porque, apesar do ar bonacheirão e cara de miúdo, o Rui Viegas é um homem grande que se fez um profissional a sério. Razão para, nós algarvios, nos orgulhamos dele, apesar de São Brás de Alportel e Faro terem perdido para Lisboa um dos jornalistas mais válidos da sua geração.

Não queria com isto escrever a biografia do Rui. O que realmente quero é falar de um amigo, sem outro pretexto que não seja o de gostar mesmo muito dele e querer homenageá-lo. A ele, o puto que se fez homem, pai e senhor de uma voz maliciosa que não consegue esconder a diversão com que vive a vida. Razão talvez do seu receio de morrer sem ter tido tempo para tocar e amar suficientemente as pessoas!

O convite era este: mesmo sem conhecê-lo, vão à bola com ele.

 

As (muitas) mulheres de Milai Miu despem-se na Casa do Jardim

Para mim faz mais sentido se começar por falar do ‘amor-próprio’. O vídeo performance em que Milai Miu se liberta de velhos estereótipos, despe a roupagem de mulher- modelo/mulher- vítima e solta-se para partir em direção a um caminho novo.

Assim, também é mais fácil começar, porque posso fazê-lo exatamente neste ponto crucial: o caminho novo. Para já porque, falar de Milai Miu e falar de SUMMA, a sua primeira exposição a solo, são dois exercícios tão intrinsecamente ligados que não consigo desprender-me de um para pegar no outro.

Este caminho novo, um dos muitos que já lhe pertencem há quatro décadas, começa a ganhar vida mais precisamente em e com SUMMA, quando decide revelar-se e revelar-se-nos em múltiplas facetas, todas no feminino. Na palavra roubada ao grego antigo (summa=soma) a artista encontra o espaço ideal para desmontar cada uma delas e mostrá-las num processo tão espontâneo, que atinge uma simbiose quase perfeita. Quase, porque se fosse perfeita, estaria esgotada e Milai não se esgota. Ela explica-se e explica-nos a homenagem às “muitas mulheres antigas que nela habitam”, mas também às outras.

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“Nesta minha viagem, encontro, passagem, consciencialização do feminino, apercebi-me das suas várias facetas, bem como da influência que várias mulheres amigas têm sobre mim. Por isso, sou a SUMMA de todas essas mulheres interiores e exteriores”, assume Milai que, nesta exposição, preferiu por isso não estar só, embora a quem nasce para fazer arte não reste outra condição que não essa.

No vídeo “saia rodada” surgem várias mulheres, unidas pelo ritmo (ou pelo abraço?) da dança e depois mais mulheres convidadas a definir (ou a definir-se), o conjunto de obras expostas na casa às riscas da Alameda.

Tudo interior, tudo sensações, tudo sentimentos, que se somam na versão plástica de uma artista pronta a deixar-se esculpir por um fremente desejo de transgressão. Umas vezes muito subtilmente, noutras com um despudor intenso. Mas sempre dramático.

Não vos disse? Falar de SUMMA é falar de Milai Miu. Mas este registo é apenas um ínfimo detalhe numa metamorfose que já não se contém, que não quer nem pode ficar contida. Esperamos que sim. De uma artista multifacetada espera-se tudo!

Entrem na Casa do Jardim (Jardim da Alameda), em Faro e comecem pelo ‘amor-próprio’, porque é melhor começar com um arrepio a atravessar-nos a pele.

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Milai Miu (Maria Adelaide Fonseca) nasceu nas Caldas das Taipas e reside no Algarve desde 1993, altura em que começou a trabalhar em teatro, performance, cinema, artes plásticas e visuais e em fotografia. SUMMA-Exposição de Instalação e Vídeo, pode ser visitada até 12 de agosto, de 3ª a sábado, das 16h30 às 18h30.

O homem que se faz ao mar…

Escrever sobre os amigos é difícil. Quem já passou por ‘isto’ sabe como é penoso evitarmos as palavras que nos atraem por serem aquelas que mais… nos traem. Por isso decidi fingir que João e eu não somos amigos. ‘Apenas’ o fotógrafo que expõe este mês no Mal Dito Algarve.

Em todo o caso, fosse não eu, mas o mar a contar esta estória, e ela sairia muito mais bela e inspirada. É que, por muitas voltas que se tente dar às voltas que o João dá à vida, o mar lá está, a servir quase sempre de horizonte.

Foi aliás por ele (o mar), que João Tata Regala chegou ao Algarve. Para estudar Biologia Marinha e Pescas na universidade e “construir-se como pessoa”. Numa altura em que já o oceano lhe ouvia confidências. É sua, esta também:

“A minha ligação ao mar é antiga. Aprendi a nadar só aos 14 anos e no entanto vejo-o como confidente. O mar representa, para mim, muito mais do que profissão. Nele residem um conjunto de ambiguidades filosoficamente interessantes. É onde todos os sentidos se encontram estimulados, a cadência das ondas induz à meditação, a aparente monotonia da paisagem me traz a sensação de aventura… Interior? Exterior? Qual das duas a mais profunda…”

Questão tão profunda quanto os oceanos que cruza há já duas décadas, embarcado em navios de grande porte. Vertente que ainda não esgotou, pela vontade de chegar sempre ao âmago das experiências que chama para si. O apelo, assume, são as embarcações industriais e à vela porque se revelam “no paradoxo de ambientes humanamente frios e extenuantes, por contraponto a momentos românticos de lazer disciplinado”.Ta foto

E é assim, neste incessante mergulho nas essências que o constroem, que Tata Regala se envolve com a fotografia. Encarada como forma de expressão artística para se relacionar com o mundo, esta é uma arte abandonada como profissão porque quis atribuir-lhe papel de catarse. Tata fotografa para auscultar o mundo e as pessoas enquanto espelhos de si próprio, já que se vê com maior lucidez através das rugas da pele alheia.

Não que se considere retratista. Confrontado por ser mais “foto-artista plástico” do que fotógrafo, sente-se confortável nessa condição e serve-se dela para procurar um género que o defina. Embora de antemão certos ensaios fotográficos se revelem em imagens que falam no seu todo. Ou não! Porque a verdade é que permanece num estado de paixão por muitas composições do passado.

“Creio que estes projetos continuam presentes porque sinto-os incompletos. A motivação de cada projecto é alguma inquietação e estas inquietações persistem amadurecidas à luz dos ditos trabalhos. Projectos como ‘7 décadas up’, ‘Rotinas da Morte’ e ‘Descortinar’, marcaram-me de sobremaneira. São muito maiores do que eu…”

Maiores até do que o teu sonho, não é Tata Regala? Porque, perto poderá estar o espaço onde irás “modelar a luz a convite das emoções” de quem fotografas. Este é um sonho bonito, amigo!

O famoso Pastel que adoça Faro

Pastel de FaroPaulo é daquelas pessoas que acreditam nas próprias ideias. Por isso nunca desistiu de fazer de uma das suas, o símbolo da cidade onde nasceu. Embora durante alguns anos a aguardar pelo momento certo, o ‘Pastel de Faro’ atingiu o ponto de rebuçado em Janeiro deste ano e já entrou na vida dos mais e dos menos gulosos. Isto porque apresenta-se em dois tamanhos.

Feito de massa folhada, enfeita-se com as cores de Faro em pequenos riscos de chocolate preto e branco, que nos desafiam a descobrir o que vem depois. Sem revelar o sempre precioso segredo do chefe pasteleiro, podemos desvendar um pouco deste bolinho que vai deixando o vício em muito boa gente. E não só na capital algarvia. São largas as centenas que já ultrapassaram as fronteiras da cidade, da região e do País, para adoçarem muitas bocas pelo resto do Mundo.

Por cá, é mais fácil. Basta passar pela rua do Alportel e parar à porta do número 50 B. O espaço da pastelaria é muito atraente mas é do outro lado da rua que nos chega o cheirinho do ‘Pastel de Faro’. Na fábrica da Confeitaria Alengarve, uma das mais antigas a sul de Portugal (criada no início dos Anos 70), é onde Paulo Madeira guarda a receita do já famoso doce regional.

paulo“Decidi criar alguma coisa que não existisse numa cidade que, sendo a capital do distrito, lhe falta tanta coisa. No início a ideia foi desvalorizada, mas nunca desisti e acabei por ter reunidas as condições para concretizar o projeto”, refere o autor.

Como qualquer boa ideia, a receita do ‘Pastel de Faro’ tem patente registada e a venda é exclusiva da Confeitaria Alengarve, por isso não adianta andar por aí à sua procura. E não, não me esqueci… Desvende-se o mistério: por baixo dos riscos de chocolate preto e branco, deixamo-nos embalar por um delicioso creme de amêndoas, ornamentado a caramelo e fios de ovos. Hoje não é um bom dia para ficarmos presos a dietas…

 

Crónicas de uma escritora inconformada

Um dia deu-lhe a raiva e desatou a escrever.
Agora tinha de falar sobre a sua obra. Dos livros já publicados. Mas primeiro quero falar da raiva, porque só assim posso falar de Lina, a senhora de cabelos grisalhos, certinhos, a emoldurarem-lhe o rosto pequenino, decorado com uns olhos de menina onde guarda as memórias da avó Ana.

Uma avó especial, nascida em Messines, com quem aprendeu a ser uma contadora de estórias. Lina sonhava ser assim: ter os cinco netos sentados aos seus pés, a beberem-lhe os contos que traz da infância. Como faziam ela e o irmão nos serões em que tremiam como varas verdes, não de frio, mas pelos arrepios que essa avó lhes causava com narrativas de lobisomens e outras figuras bizarras, que na altura habitavam o interior algarvio. Todas com um pouco da verdade e outro pouco da fantasia da matriarca, que aprendeu a ler e a escrever sozinha para atravessar a vida dos habitantes da aldeia e depois as da própria família, para chegar até às nossas.

Daí a raiva. Porque ao contrário de Lina e do irmão, os netos, os seus, não lhe ligaram nenhuma. Trocaram-na pela televisão. Para ser ouvida, ela não gritou, escreveu.

Agora sim, podemos falar dos livros. São três, sem contar com o resto das letras que ainda guarda na gaveta e garante jamais irem ganhar vida com capas nem títulos.

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Assim de seguida, para conseguir ser a tempo a tal avó como devem ser as avós, Lina Vedes deu à estampa três volumes feitos com e de deliciosas memórias: ‘Pedaços d’ontem na cidade de Faro’ (2009), ‘Faro- retratos à la minuta’ (2010) e ‘Gente de Faro’ (2017). Todos feitos a partir da sua estória começada em São Brás de Alportel e transferida aos 4 anos para a capital do Algarve, onde se fez professora e construiu estas crónicas com emoções e fotos de época.

São livros de memórias, mas são sobretudo declarações de amor. Ou não confessasse a própria autora “amar Faro, com paixão doentia”.

Depois de ler cada um deles, fica-se na dúvida se escreve para se libertar das estórias, ou se as quer eternizadas. Mas há uma certeza: Lina Vedes nasceu para ser uma escritora plena de inspiração, a quem devemos uma importante herança em palavras bem desenhadas. Por ser simples a sua escrita, ficamos rendidos às gentes de Faro e à história de uma cidade que precisará sempre de gente assim. Como ela!
Pode ser que o resto das tais letras ainda ganhem capa e título…

O meu amigo Carlos Almeida

É um daqueles lisboetas sem peneiras de quem é tão fácil gostar. Mesmo sabendo que de vez em quando lhe assalta a mania de fotografar aviões. Paixões não se discutem, já se sabe, e por essa razão ficamos também nós presos a este homem com uns olhos esverdeados, que conseguem capturar beleza quando espreitam por uma lente.

Carlos Almeida já é nosso. Por sua culpa. Foi ele quem quis fugir da cidade grande para virar uma página de vida e instalar-se no Algarve. Por cá tem feito amigos e registado milhares de momentos, a maioria em cenários desportivos (de preferência competições motorizadas), como repórter fotográfico para vários títulos de informação. É no entanto um trágico capítulo da história nacional, aquele que guarda como momento inesquecível da carreira:

“A experiência fotográfica que mais me marcou foi o incêndio do Chiado, em Lisboa, no dia 25 de agosto de 1988, ao serviço do Correio da Manhã, jornal onde trabalhei durante oito anos. Foram mais de nove horas a fotografar uma parte da minha cidade a ser destruída pelas chamas. Jamais esquecerei aquele dia”.

Tenho o privilégio de partilhar com o Carlos duas partes da sua existência. A amizade e o trabalho jornalístico. Mas não é por isso que o convidei para inaugurar, com a mostra ‘Momentos’, a galeria de exposições mensais no Mal Dito Algarve.

A verdade é que, por detrás de uma personalidade vincada em parte pela teimosia, descobrimos um ser humano capaz de nos corromper as emoções. Por gostar do mar, que o atraiu até ao Sul. Ou pelo sonho que acalenta. Belo como todos os sonhos: viajar de moto pelos quatro cantos do mundo, registando em biliões de píxeis as aventuras fotográficas que há-de reproduzir em livro um dia mais tarde.

O Carlos Almeida prega-nos estas partidas: humedece-nos os olhos com uma certa inocência de menino em corpo de homem, quando nos faz acreditar que o impossível é possível.

Acredito em ti amigo. E muito obrigada por estares aqui comigo, nestas nove belas fotos que animam o Mal Dito Algarve enquanto, vamos lá ser poéticos, “o mundo pula e avança/como bola colorida/entre as mãos de uma criança”. Seremos sempre assim, tu e eu: deux enfants terribles. Até ao fim!

Os mundos fantásticos da escritora Gorette Jardim

Não parece mas ela é tímida. Se calhar por isso é que escreve. E se calhar também é por isso que pinta. Num destes dias reuniu as duas coisas numa só, acreditou em si própria e surpreendeu quem dela já muito sabia e os outros que começam a querer saber mais.

Dá pelo título de ‘Uma Aventura no Mundo de Graian’ o primeiro livro de Gorette Jardim que, apesar de escondida no pseudónimo Valentina d’Espirais, mostra a cara e um cativante sorriso quando lhe pedimos para falar deste desafio. Já conquistado diga-se, pela coragem que merecem reconhecida todos os autores decididos a publicar no Algarve.

livro

Pela mão da Arandis ganhámos uma nova escritora e uma obra que nos derrete o coração. Esta ‘aventura’ começou por ser um conto levado ao concurso Agostinho de Cultura, da editora Adonis, no Brasil, onde obteve o segundo lugar. Depois cresceu para um formato ilustrado pela própria autora que, há cinco anos, trocou a agitação de Faro pela tranquilidade de uma quinta no interior do concelho de Silves.

Foi aqui que se inspirou para escrever a estória de Mateus, o menino brasileiro e disléxico que vive no barrocal algarvio onde conhece Grifalda, uma menina-árvore. Os dois partem à aventura pelo mundo de Graian. Durante a viagem pelos elementos terra, fogo, água e ar, Mateus vai descobrindo novas realidades e seres fantásticos, confronta-se com os seus medos mais profundos e sendo obrigado a tomar decisões sobre o seu e o futuro de Graian.

“Apesar de ter sido escrito para um público infanto-juvenil, a estória aborda a superação de dificuldades e a necessidade de fazermos escolhas para resolvermos os problemas que nos vão surgindo. Isto, a meu ver, adequa-se a qualquer idade”, sublinha a escritora que, na forja, já tem mais duas estórias. Em ambas, é da fantasia que emergem questões tão pertinentes e atuais como o bullying e a amizade. Aguardamos com expetativa.

Para já deixemo-nos envolver por ‘Uma Aventura no Mundo de Graian’. À venda por 12 euros, o livro pode ser adquirido através da editora Arandis ou em diversas livrarias, hipermercados e quiosques, entre outras lojas.

De Gorette convém dizer ainda que viveu no Brasil e, a par de muitas atividades como instrutora de Hatha Yoga e terapeuta de Massagem de Som, é professora do ensino básico, tem formação em Língua Gestual Portuguesa e especialização em Educação Especial no Domínio da Comunicação e Fala. É mestre em Comunicação, Cultura e Artes com Especialização em Teatro e Intervenção Social e Cultural.

Uma mulher de quem nos orgulhamos de conhecer e de gostar dela!