Dia Mundial da Criança: As verdadeiras e as outras

Diz-se que há um tempo de ser-se criança. Não creio!

Falemos então de crianças. As verdadeiras e as outras.

Primeiro as primeiras. As que, unanimemente afirmamos, enquanto se é, é a melhor coisa do mundo. Julgo que também para o mundo. Porque são a nossa esperança.

São de uma matéria ainda pura, feita de amor incondicional e fazem-nos crescer em ternura e em vontade de melhorar tudo à nossa e à volta delas. Fazem-nos sobretudo acreditar que isso é possível e, porque acreditamos, conseguimos de facto melhorar muito do que está menos bem feito, destruir o que ameaça destruir-nos e construir de novo o que pode tornar mais belos os dias. Os delas, os nossos e os dos outros.

São o que de melhor existe no mundo, as crianças.

E depois as outras. Aquelas que não perderam o jeito de sorrir com as duas orelhas coladas aos cantos da boca. As que ainda acreditam no poder desse sorriso e por vezes deixam cair sem pudor uma gargalhada no meio de um silêncio feito de adultos. As que, em momentos inusitados, fecham os olhos fingindo cansaço, para poderem sonhar, sem dormir. Como se tivessem idade para isso. As que se deixam ficar paradas à chuva, indiferentes ao tamanho e a repreensões veladas, apenas porque existe um arco-íris no céu a pedir para ser visto.

Estas outras são menos. Mas não são poucas. Vivem quase sempre mais perto das primeiras. E o mais certo, é que nunca deixem de ser assim.

Hoje, Dia Mundial da Criança, o meu mais sincero afeto vai para as primeiras. Para quem desejo o mundo melhor que possa existir. Porque deverá ser sempre delas o que de melhor houver para dar.

Às outras deixo apenas duas orelhas coladas aos cantos da boca. O resto fica-nos em segredo!

O dia em que o Natal escapou ao Android

A velha é tão velha que já mal pode andar. Por isso passa os dias sentada no terraço das traseiras, com o tablet no colo, a navegar na Net. Durante o verão usa um toldo para se proteger do sol nascente que lhe fere os olhos quando acerta nas paredes brancas da casa, mas agora estamos no inverno, o calor está mais mansinho e sabe-lhe bem senti-lo a chegar aos ossos.

Para que se saiba, a velha é poeta. Não frequenta à toa as redes sociais. Escreve estórias, faz versos e quadras que raramente rimam porque despreza a poesia popular e cria frases filosóficas para serem partilhadas pelas centenas de seguidores com quem convive virtualmente no Facebook. A sua página no Instagram está carregada de imagens sem qualquer inquietação artística, favorecidas por uma imaginação feraz e a imperícia no uso da câmara comprada pela Internet. Também não raras são as vezes em que opina, sublevando com classe intelectual muitas discussões que agitam a atualidade no Twitter. E nos dias em que acorda servida pela inspiração, envia mensagens amparadas em belas prosas e voz melodiosa aos amigos no WatsApp. Mas quando lhe apetece estar sozinha, tira o e-book do bolso e lê, até que a luz fuja para trás do horizonte e as sombras lhe comecem a gritar por um agasalho.

Esta velha, de uns suaves olhos azuis ligeiramente aprofundados pela idade, vive numa casa nas margens da cidade, com as janelas viradas para uma serra e diz-se feliz. Mas hoje acordou inquieta, o que não lhe é vulgar, e ficou algum tempo de pé, de costas para a porta, a olhar para dentro da casa. Nota-lhe primeiro o silêncio…(Ler todo…)

Cães do Algarve querem brincar em segurança

A pedido da Súrya hoje venho falar sobre os nossos amigos de quatro patas. Para reclamar da falta de vontade e de responsabilidade política na maioria das nossas cidades em relação ao bem-estar animal.

Deixando de lado a questão dos hospitais públicos, que será tema para uma próxima oportunidade, debruço-me hoje sobre a falta de espaços dedicados aos nossos companheiros para poderem brincar, correr e socializar em segurança.

E parece que o investimento não é assim tão grande a ter em conta a arrojada decisão da Câmara Municipal de Olhão, que lançou o primeiro Parque Canino (Dog Park) do Algarve. O projeto custou 69 mil euros e foi feito a pensar no futuro: a realização de campanhas de adoção, sempre bem-vindas face ao elevado número de patudos a precisarem de uma família a sério.

Era bom que os outros 15 municípios do Algarve seguissem este exemplo, já que espaços onde os nossos animais possam brincar em liberdade, sem incomodar terceiros e sem riscos para eles próprios, são raros e os que existem resultam normalmente da iniciativa privada.

Para mim esta não é uma questão de somenos importância. Os cães existem, pagam registo e licenciamento para cá estarem e por isso merecem usufruir dos seus direitos. Contemplados na lei, não esqueçamos.

Comecei este artigo a falar da Súrya. Primeiro: é a minha cadela. Segundo: foi a seu pedido sim, porque sobretudo nesta altura do ano, todos os espaços (im)prováveis como as praias, estão interditos. Acreditem ou não, ela anda triste e a reclamar pela falta de exercício em condições de segurança.

Quem tem culpa de gostar de animais?

Por que raio te amo com este perigoso amor?

Hoje tinha de falar sobre ti. Do amor que me prende às tuas cores, ao teu terrível provincianismo, à tua falta de dimensão planetária, à escassez de figuras influentes que te elevem até Lisboa e à ausência de uma dinâmica finalmente isenta dos complexos da periferia.

No dia da inauguração deste blog tinha de falar sobre esta paixão que ameaça explodir-me o coração, sempre que sinto o teu cheiro na maresia, sempre que me surpreendes com estes magníficos céus azuis, ou quando me provocas com o recorte das tuas rudes falésias e me atormentas com os ventos de Espanha.

Tinha de falar do amor e da paixão que sinto por ti, apesar de seres feito de quase nada. E no entanto, permaneço-te fiel.

Será por esta luz que não é igual em mais nenhuma parte da Terra? Por estas paisagens que irrompem das ondas, das serras e dos rios? Destas pessoas velhas que habitam o interior, numa serenidade que nos emociona até à alma? Do verão com cheiro a sorvete e a pele queimada? Dos invernos melancólicos junto ao mar, das culturas que atrais às vezes sem cultura nenhuma e deste poético pôr-do-sol que nos inspira?

Ou talvez pela ilusão de que, um dia, ainda irão tod@s perceber a nobreza que guardas e reconhecer a beleza destas gentes teimosas que te sustentam à força de braços, para te fazer menos pequenino e esquecido?!

Será razão para este amor, as saudades que sinto de ti, quando estou longe? Ou é por realmente me fazeres parecer que o Mundo começa mesmo aqui? Pois se por ti, só por ti, nunca parti…Algarve!