Dá vontade de alimentar ideias assim

No próximo fim-de-semana, o Banco Alimentar Contra a Fome (BACF) realiza mais uma campanha de angariação de alimentos destinados aos mais pobres. A quem designamos por ‘os mais desfavorecidos’, para ser mais fácil piscar o olho à realidade.

No nosso País – independentemente da forma como pretendam disfarçá-la, a pobreza ocupa uma franja preocupante e por isso as campanhas do BACF estão, para mim, entre as iniciativas mais louváveis em prol de uma causa que devia causar impressão a toda a gente.

Podia enumerar uma série de razões para pactuar com as campanhas do BACF. Deixo apenas uma nota, por ser aquela que me faz participar todos os anos na doação de alimentos.

É que, goste-se ou não de Isabel Jonet, ela tem conseguido manter-se imune às habituais contaminações que cobiçam este género de projetos. Aquelas que, à sombra de intenções mais oblíquas, orbitam perigosamente propósitos tão nobres como o de matar a fome a milhares de pessoas. Pessoas que não conhecemos mas que têm rosto, têm estórias de vida muitas vezes de uma verticalidade admirável e têm quase sempre também a seu cargo seres vulneráveis como as crianças e os idosos.Banco_Alimentar (1)

Há, no entanto, na minha opinião, uma mole humana a quem se deve agradecer o grande êxito do BACF. As muitas centenas, mas mesmo muitas centenas de voluntários anónimos, que trabalham em nome de um instrumento tão sublime como a solidariedade. Muitos, durante todos os dias do ano. Cidadãos comuns que de invulgar têm apenas uma dedicação invejável. No Algarve este movimento regista uma expressão tão extraordinária que já merecia ter espaço nas televisões portuguesas. Para o País perceber a verdadeira índole de quem aqui habita no inverno também.

Como se fossem possuídos de poderes sobrenaturais estes voluntários organizam-se de uma forma exemplar para conseguir recolher e distribuir, de forma ordeira e eficaz, toneladas de alimentos, sem margem para desvios ou outras fugas muito comuns nos universos das ajudas sociais. É por isso que gosto do BACF.

Por esta altura sei que muitos repisam numa velha questão: a irresponsabilidade de um Estado que atira para a sociedade civil a obrigação de alimentar os mais pobres. Quem pensa assim nunca deixará de ter razão. Mas esta é uma razão que se dilui cada vez mais no espírito de cidadania que não carece de desculpas para alastrar. Ser-se solidário está no nosso sangue e a mim, o que me apetece censurar, é a inércia de quem subscreve tiques e doutrinas para não se dar ao trabalho de participar. É mais cómodo, aceito, mas a indiferença relativamente à vida humana nunca me mereceu admiração.

Passar por uma loja e encher um saco com alimentos para o BACF não custa quase nada. Meia dúzia de passos e uns quantos euros que farão uma grande, mas mesmo muito grande diferença, nem que seja num único dia na vida de um cidadão. Que pode ser um dos nossos vizinhos, ou mesmo um familiar ou amigo.

Porque, embora teime em vestir as cores da vergonha, a pobreza não é coisa contagiosa e tem cura. Sábado e domingo, pelo menos, façamos parte desta gigantesca obra humanitária que contribui para a dignidade de um povo. O nosso!

2 thoughts on “Dá vontade de alimentar ideias assim

  1. Na verdade Cristina este texto é inspirado em ti. Um dos grandes exemplos de humanismo com que esta região pode contar. E um exemplo de que me orgulho profundamente. Em nome de todos aqueles a quem ajudas, eu é que agradeço!

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  2. LIND0!!! Fiquei emocionada, porque visto a camisola do Banco Alimentar do Algarve há 10 anos, desde que nasceu no Algarve e o Mal Dito Algarve conseguiu dizer tudo aquilo que sinto. E digo mais, sou mais feliz cada vez que descarrego uma carrinha vinda de um supermercado, carregada de alimentos, doados por aqueles que ainda sabem ser solidários. Sou mais feliz quando olho para as dezenas e dezenas de voluntários que comigo partilham esta vontade de mudar um bocadinho do Mundo. Obrigada Madalena pelo texto lindo e pelas palavras tão verdadeiras que transmitem uma mensagem tão bonita.

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