A minha África encantada nas pinturas de São Passos

São Passos_1Ela não é uma mulher simples. Porque os seus olhos não deixam. Misteriosos, profundos, inquietos. Feitos de uma luz que nos leva para as terras quentes de África, onde se descobriu dona de um talento tão grandioso que a fez ser tudo menos uma mulher simples. Fê-la ser uma senhora do mundo. A terra-mãe está, aliás, sempre presente nas suas obras, emergindo em formas poderosas da intensidade dos traços e das cores, que nos trazem de volta os cheiros, os ritmos, a serenidade do tempo e também uma tremenda vontade de viver.

Era bom que, tendo dito isto assim, já tivesse dito tudo sobre ela. E libertava-me já desta prova de fogo: escrever sobre São Passos. Dela tenho uma primeira recordação desconcertante que guardo só para mim, no mesmo lugar onde lhe dedico um infinito respeito. Como aquele que se sente quando nos vemos perante alguém maior do que todas as coisas que já conhecemos até ali. Percebem agora como isto não é fácil?

Salva-me esta amizade cultivada à distância durante uns quase 30 anos, para poder estar hoje aqui a tentar transformar um sentimento em palavras que façam sentido. Se confessar a minha paixão pelas suas obras talvez seja um bom começo. Não consigo não gostar de alguma. Porque em todas as que conheço encontro a sensação de retornar a casa. E nunca encontrei, até hoje, nenhuma outra sensação mais doce do que esta. Será o apelo de África, aquele continente que desperta em nós um remoinho de emoções que nos levam por caminhos irreparáveis, ou porque as suas telas nos trazem para a flor da pele carinhosos afagos vindos da infância?!São Passos 4_1

Enquanto mergulho os olhos nos quadros da São Passos, pergunto-me sobre o que terá aquela cidade da Beira onde nasceu, para conseguir oferecer a algumas pessoas elementos tão sublimes como o dom para a arte. E reconheço a sorte de me ter cruzado com um génio que faz nascer das mãos, estes maravilhosos mundos onde cabem todas as nossas fantasias. O que sentirá a São quando deixa que os pincéis revelem aquilo que os seus olhos escondem?

“A pintura é o antídoto que qualquer artista necessita para esquecer o futuro incerto, que nos espreita. Quando pinto, diariamente, esqueço-me de tudo e de todos, sabendo  – modéstia à parte – que irei contribuir nacional e internacionalmente, para a felicidade de homens, mulheres e crianças, cujo idioma é diferente. Dou workshops de pintura e de artesanato a todas as faixas etárias – dentro e fora do País – e a maior parte das minhas exposições é a pensar no próximo: não custa nada ser solidária com quem precisa”.

Talvez por ser assim, foi empossada como Embaixadora para a Paz, pela Federação Internacional da Paz (março de 2012). E a legitimar a minha admiração por esta artista de coração grande, deixem-me dizer que está também referenciada na publicação ‘Aspetos das Artes Plásticas em Portugal’ (1985) e no livro ‘Arte 98’, ambos da autoria de Fernando Infante do Carmo. Para além disso, São Passos foi reconhecida pelo Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora e pela ALDCI – Associação Lusófona, Desenvolvimento, Cultura e Integração, pelo “prestígio que granjeou nas artes plásticas e pelo seu grande contributo para o enriquecimento e divulgação da cultura moçambicana”.

Não sei falar de pintura. Por isso não saberia falar de outra forma sobre as obras de São Passos. Mas há uma coisa na qual ninguém me pode contrariar: que aqueles olhos escondem alguma coisa, lá isso escondem. Foi sempre o que mais me impressionou nela…!

‘OLHA QUE DOIS’ JUNTA SÃO PASSOS E MARQUES VALENTIM EM PORTIMÃO
São Passos 2_1Já sobra pouco tempo, mas ainda vale a pena visitar a exposição que São Passos trouxe ao Algarve, durante este mês de setembro. ‘Olha que dois’, junta a artista ao fotojornalista Marques Valentim, na Casa Manuel Teixeira Gomes, onde pode ser visitada até amanhã, das 10h às 18h. Se não for a tempo não faz mal: a São promete voltar em breve ao Algarve, onde aliás mostrou pela primeira vez as suas obras em Portugal. Foi em Faro, em julho de 1973, numa exposição individual com o patrocínio da Comissão Regional de Turismo. Muito antes disso já dera a conhecer o seu trabalho a um bocadinho do mundo: primeiro na cidade moçambicana de Tete, depois na Beira (onde nasceu em 1949), Joanesburgo e Pretória (África do Sul), Blantyre e Limbe (Malawi), até chegar à Europa. A residir em Portugal (Belas) desde 1976, São Passos expõe com frequência no nosso País e no estrangeiro. A próxima exposição é inaugurada dia 3 de outubro, no Hotel Cidadela, em Cascais, a convite do Rotary Club Cascais/Estoril.Depois é só mais um saltinho até ao resto do mundo. “Desde que comecei a pintar, sempre sonhei que os meus trabalhos fossem conhecidos nos quatro cantos do mundo, influenciando miúdos, pessoas mais velhas, e não só, com a cor, movimento e vida, que lhes dou. E não me enganei…o país que me viu nascer – Moçambique – África do Sul e antiga Rodésia, conhecem o meu traço pictórico. Expor em várias capitais mundiais, é um sonho que está cada vez mais perto.”
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Quem semeia ventos…colhe frescura numa rua de Loulé  

Há dias assim. No espaço de uma hora mudamos de decisão…umas quantas vezes.

Aconteceu-me em Loulé, onde fui propositadamente para saborear umas tapas no bar Colheita Fresca, depois de andar algum tempo a espreitar as fotos apetitosas na página do Facebook. À chegada gostei do espaço, gostei do atendimento e do rosto simpático de quem me levou a escolher mesa e trouxe a tábua mista decorada com uns apontamentos coradinhos, próprios dos tomates cherry. Sempre com um sorriso disponível!

A primeira mudança de decisão ignorou no entanto a simpatia do senhor Vieira. A lista das tapas desiludiu-me por não oferecer nada de extraordinário. Quando queremos ser surpreendidos acontece-nos isto. Ainda pensei que o problema não era do menu nem de quem o elaborou, mas inteiramente meu, por criar expetativas de ter o que ninguém me prometera. Sem grande ânimo optei pela tábua mista e uma salada de polvo e não fiquei nada mal porque, por essa altura, o pão caseiro e as azeitonas deliciosas já me tinham espevitado o apetite. Os enchidos e o queijo eram bons, o polvo estava macio e bem temperado, mas mesmo assim decidi não escrever nada porque teimei na ideia de querer viver a famosa experiência de uma explosão de sabores e coisas do género, que nos prometem muitas vezes quando a matéria é gastronomia.

Colheita Fresca

 

 

Colheita Fresca 1

À perguntam “se gostei?” enquanto pagava, não me contive e pedi licença para fazer uma ligeira sugestão: uma pequena mudança nas tapas, mais elaboradas, enfim… E recebi de troco a resposta: “Ainda hoje falei com a minha esposa e decidimos mudar o menu para petisquinhos mais propícios ao inverno”. E é aqui que o senhor Vieira e o seu sotaque nortenho me conquistam o coração. Sem dar por isso, ouço-lhe a estória que fez nascer o Colheita Fresca. Um projeto que nasceu à sorte quando, ainda em Inglaterra onde esteve emigrado mais de uma década, o senhor Vieira e a mulher apontaram, praticamente às cegas, o dedo ao anúncio de um bar para alugar e decidiram: “Vamos para aqui!”Colheita Fresca 5

Desprezando os detalhes do negócio, só em solo algarvio descobriram ser este um espaço de pouca fama e cheio de móveis quebradiços. Mas quem se especializou na aventura de emigrar desde curta idade não costuma dar-se por vencido e é assim que este homem do norte com um sorriso fácil, transformou uma velha discoteca num bar de tapas muito agradável, que vai buscar ao mercado ali próximo a frescura dos produtos genuínos para transformar a rua Dr. Joaquim Nunes Saraiva num lugar onde nos sentimos bem.

E esta foi a última vez que mudei a minha decisão. Afinal sempre escreveria… Não sobre as óbvias propostas gastronómicas, mas sobre o encanto que nos desperta quem se faz à vida sem medo para criar projetos válidos como o Colheita Fresca. Não sei se haverá uma próxima vez, mas fiquei curiosa sobre o novo menu e a francesinha que garantem ser excecional.

Outra coisa: normalmente informo os protagonistas das minhas estórias quando vou escrever sobre eles e publico-lhes a foto. Desta vez decidi não fazê-lo porque me apetece quebrar as regras e deixar isto ao sabor do destino. Como fez o senhor Vieira. Pode ser que dê sorte! Sem expetativas…!

O doloroso regresso das férias

O regresso das férias de verão é uma experiência anual verdadeiramente intransponível na vida de qualquer pessoa. Pelo menos das que gostam de férias. A mim custa-me. É como se as palavras também tivessem ido descansar para longe de mim e resistissem ao dever de voltar para me servir a inspiração. Tenho de fazer um esforço herculano para resgatar cada uma delas e arrumá-las de forma a conseguir alinhar umas quantas ideias para o arranque da nova época. Como se fosse eu a pertencer-lhes e não elas a mim.

Estou a usar a meia dúzia que consegui trazer de volta à rotina para desejar a todos um bom regresso à vidinha normal, de preferência sempre na companhia do Mal Dito Algarve. Não prometo nada de especial porque tenho por hábito não cumprir as promessas, mas é provável que continue a escrever sobre o que gosto e às vezes sobre o que nem por isso.

Agora que já espantei a preguiça e dei ordem de regresso às palavras…

Sinceramente, a quem é que eu estou a tentar enganar? Como é que se tira esta estúpida angústia da garganta por terem acabado as férias? Como é que se consegue passar um dia inteiro a levar a vida a sério sem pensar no mar a espraiar-se ali mesmo ao lado nas areias agora quase desertas? Quem é que tem energia para organizar a agenda, quando esta brisa morna nos empurra para as esplanadas ainda apinhadas de gente, quando estas manhãs luminosas teimam em chamar-nos para um belo passeio ao ar livre, quando o entardecer parece prolongar-se mais um bocadinho para nos dar tempo a um último mergulho nas ondas de setembro…?

Por que tinham de acabar as férias?  Porquê, se o verão ainda não acabou?!image