Crónicas de uma escritora inconformada

Um dia deu-lhe a raiva e desatou a escrever.
Agora tinha de falar sobre a sua obra. Dos livros já publicados. Mas primeiro quero falar da raiva, porque só assim posso falar de Lina, a senhora de cabelos grisalhos, certinhos, a emoldurarem-lhe o rosto pequenino, decorado com uns olhos de menina onde guarda as memórias da avó Ana.

Uma avó especial, nascida em Messines, com quem aprendeu a ser uma contadora de estórias. Lina sonhava ser assim: ter os cinco netos sentados aos seus pés, a beberem-lhe os contos que traz da infância. Como faziam ela e o irmão nos serões em que tremiam como varas verdes, não de frio, mas pelos arrepios que essa avó lhes causava com narrativas de lobisomens e outras figuras bizarras, que na altura habitavam o interior algarvio. Todas com um pouco da verdade e outro pouco da fantasia da matriarca, que aprendeu a ler e a escrever sozinha para atravessar a vida dos habitantes da aldeia e depois as da própria família, para chegar até às nossas.

Daí a raiva. Porque ao contrário de Lina e do irmão, os netos, os seus, não lhe ligaram nenhuma. Trocaram-na pela televisão. Para ser ouvida, ela não gritou, escreveu.

Agora sim, podemos falar dos livros. São três, sem contar com o resto das letras que ainda guarda na gaveta e garante jamais irem ganhar vida com capas nem títulos.

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Assim de seguida, para conseguir ser a tempo a tal avó como devem ser as avós, Lina Vedes deu à estampa três volumes feitos com e de deliciosas memórias: ‘Pedaços d’ontem na cidade de Faro’ (2009), ‘Faro- retratos à la minuta’ (2010) e ‘Gente de Faro’ (2017). Todos feitos a partir da sua estória começada em São Brás de Alportel e transferida aos 4 anos para a capital do Algarve, onde se fez professora e construiu estas crónicas com emoções e fotos de época.

São livros de memórias, mas são sobretudo declarações de amor. Ou não confessasse a própria autora “amar Faro, com paixão doentia”.

Depois de ler cada um deles, fica-se na dúvida se escreve para se libertar das estórias, ou se as quer eternizadas. Mas há uma certeza: Lina Vedes nasceu para ser uma escritora plena de inspiração, a quem devemos uma importante herança em palavras bem desenhadas. Por ser simples a sua escrita, ficamos rendidos às gentes de Faro e à história de uma cidade que precisará sempre de gente assim. Como ela!
Pode ser que o resto das tais letras ainda ganhem capa e título…